VONTADE
Toda vez que te vejo, eu tenho vontade.
Vontade suficiente pra carregar o mundo
Abrir a serra no peito e arrastar o rio comigo.
Toda vez que te sinto, eu tenho vontade.
Vontade suficiente pra produzir faísca
De um milhão de megatons, e tudo vira fumaça.
Toda vez que te lembro, eu tenho vontade.
Vontade suficiente pra te buscar no espaço
Só pra sentir de novo o gosto do teu sangue
Do teu suor,
Da tua seiva
Impregnada em cada pelo do meu corpo.
A vontade que me dá é calor,
É fusão,
É confusão; de não saber mais quem somos,
O que fomos,
Ou qual seremos.
É vontade de não ser;
De tento ser.
Tu me deste um corpo feito
De frieza e solidão.
Tudo então era perfeito:
Eu, vazio de emoção.
Mas, meu Deus, qual foi o jeito?
Por que essa condição?
Pra me ver insatisfeito,
Tu me deste um coração.
Escrito por cimatti às 11h12
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REVOLUÇÃO
"Qual é dessa vez,
a nova novidade?
Qual é a de vocês?
Qual é a vossa idade?"
"Cê num sabe,
mas agente não se basta.
O velho amor
é um mar que nos arrasta
pr'um novo amor,
no mesmo mar.
"Queremos tudo novo
no ovo de novo
Queremos tudo sempre
da gente que sente
que tem fogo nos olhos
e sede no coração
Queremos uma solução
uma nova revolução"
"Qual é desse mês?
(a nuvem novidade)?
Qual é a de vocês;
a vossa identidade?"
"Cê num sabe,
mas agente não tem casa.
saber voar
é navegar pra ter asas
de novo ar:
pra não vagar."
(Devagar!
Divagar
não é voar.)
Escrito por cimatti às 11h03
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Passarinho... Passarão...
Passarei a minha vida
Escutando, em seu refrão,
Toda a prosa resolvida.
Escrito por cimatti às 11h00
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O AMOR ARRUMOU MINHA GAVETA
O Amor esteve aqui
e eu nem lhe percebi;
entrou em silêncio
pela porta aberta,
comeu do meu prato,
me deixou um bocado,
visitou o meu quarto,
me levou um retrato:
há muito guardado
na minha gaveta.
Arrumou minha única gaveta:
a gaveta do amor desarrumado.
O Amor esteve aqui
e eu nem lhe percebi;
abriu a janela
que dá para a rua,
usou meu sapato,
pisou o meu gramado,
cuidou do meu gato,
me pintou um retrato:
há muito tirado
da minha gaveta.
Arrumou minha única gaveta:
a gaveta do amor desarrumado.
O Amor esteve aqui
e eu nem percebi.
Eu não estava em casa.
Escrito por cimatti às 10h59
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MINHA MUSA
Vamo se vingá
do sofismo da poesia:
da beleza vazia.
Eu quero o poema sujo,
o verso esdrúxulo.
Eu quero, com a poesia ferreira,
estrangular a melodia.
Vamo se vingá
da Prima Rica,
da Tia Clara.
Eu quero a rima pobre;
do homem pobre; da vida pobre.
Chega de Big Brother!
Minha musa tem barriguinha,
trabalha em pastelaria,
e é linda como ela só.
Escrito por cimatti às 10h55
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Já não temo os fantasmas
Invoco a todos
Que venham em bandos
povoar meus dias
atormentar minhas noites
Entre tantos
loucos e livres
existe um que é doce
e que me falta
Escrito por cimatti às 10h53
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FOGO NOS OLHOS
(para Wandinha)
Juventude e cabelos ao vento...
Fogo nos olhos no infinito...
A Virgem Indomável
arrasta quem quer (mesmo que não queira).
"Saiam! Saiam da frente!",
dizia um dos gigantes.
"Pra onde eu vou, venha também!",
diz a pequena ruiva mutante.
Uma ciranda na varanda,
e a Wanda faz a cabeça da paranga,
enquanto a banda toca contramão.
Mas a Virgem é indomável.
Ninguém a tem:
nem Atenas, nem ninguém.
Ninguém a tem:
nem apenas eu também.
Paixão do Leste...
Paixão d'Oeste...
Paixão do Norte...
Paixão do Sul...
Tanto amor,
só podia ser multidão!
Escrito por cimatti às 10h53
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Eu sei que andei errado;
meu caminho sempre foi torto
(e qual não é?).
Eu sei que amar é raro;
meu capricho sempre foi tosco
(igual não há).
Mas agora é tempo,
é estação, temporada.
Dentro do peito, um batuque
mistura truque e badulaque:
outra bituca, outra felicidade.
Agora, no tempo certo,
um sentimento temporão
com passo dividido.
Não me divirto,
mas não saio do ritmo.
Faço uma tríade ressonante
num tempo dobrado.
Acordo dissonante,
distante no espaço:
faço tudo certo
no lugar errado.
Eu sei que andei errado;
meu castigo é meu: ser estorvo
(e quem não é?).
Escrito por cimatti às 10h51
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CIRANDA
Ciranda, ciranda!
Ciranda universal!
Deus toca ciranda
num rito genial.
Ciranda, ciranda!
Ciranda madrigal!
Danço essa ciranda
de baque marginal.
Deus é cirandêro.
O batuque é sideral
(Ciranda, ciranda!
Viagem auto-astral!).
Ciranda, ciranda!
Ciranda maioral!
Cante uma ciranda
de fundo capital!
Ciranda, ciranda!
Ciranda Divinal!
Física ciranda:
meu circo passional.
"Sai dessa varanda!
Zarpai, Psiconau!"
Escrito por cimatti às 10h50
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Bater dói pra caralho!
Eu sei por que já bati muito.
E toda vez que apanho,
Tenho dó de mim
e dó de quem bate.
A lírica me faz chorar,
enquanto estrangulo.
Porque no fundo
estrangulo a mim mesmo:
agora ou no futuro.
Irônico, me pego a rir
deste moribundo
Que me tortura,
torturando a si mesmo:
agora e no futuro.
Bater dói pra caralho!
Tenho dó de quem bate.
Escrito por cimatti às 10h48
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ARRITMIA
(para Maíra Belintani)
...minha Estrela?
Já não sei se ainda
é minha Estrela,
ou se é mais estrela?
Mas sei que ainda brilha,
mesmo não sendo minha.
Quem ouve estrelas
e perde o senso,
saberá me ouvir:
saberá me entender.
Quem ainda sabe
conjugar sem verbo,
me verá pulsar,
e viverá
em arritmia temporal.
Meu coração vive
onde as coisas não mudam.
Por isso ele não palpita...
Por isso ele me carrega
pra fora do tempo,
pra Via Láctea...
onde se ouvem estrelas,
onde minha Estrela
ainda brilha.
Mesmo não sendo minha!
Escrito por cimatti às 10h47
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A NOITE
A noite é íntima.
A noite é ótima pra ler,
pra conversar,
pra namorar.
O dia tá cheio de luz,
cheio de gente,
cheio de cor.
A noite é íntima.
O problema
é quando tentam
fazer da note um dia.
Aí a noite não passa
de trevas.
E o dia não passa
de claridade.
A noite é íntima:
é dos amantes e dos amigos.
Escrito por cimatti às 10h44
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NO ANDAR DE CIMA
No andar de cima.
Tem um homem no andar de cima
Observando
Os meninos do andar de baixo.
Meninos correm,
Meninos pulam,
Meninos amam.
E o homem do andar de cima...
Observando.
Tem um homem no andar de cima
Desconcertando
Os meninos do andar de baixo.
Meninos mamam,
Meninos lutam,
Meninos morrem.
E o homem do andar de cima...
Desconcertando.
Tem um homem no andar de cima
Paralisando
Os meninos do andar de baixo.
Meninos dormem,
Meninos ninam,
Meu ninho d'homem.
E o homem do andar de cima...
Paralisando.
Tem um homem no andar de cima
Anarquizando
Os meninos do andar de baixo.
No andar de baixo,
Homeninam,
Dominandar.
E o mesmo radar de rima...
Anarquizando.
Homenino que andar em baixa,
Eu remo a rodar de riba.
Escrito por cimatti às 10h42
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PELO CU DA CIDADE
Pela escola pública
Pelo bairro fétido
Pela escolha única
Pelo amor intrépido, eu entro na cidade.
Na cidade escura
Na cidade rala
onde é ralo
onde é raro
onde erraram.
Pela praça lúdica
Pelo paço rústico
Pela pressa dística
Pelo dia léxico, passeio na cidade.
Na cidade cura
Na cidade clara
onde é caro
onde é cara
onde ecoaram.
Pela fila tímida
Pelo passo trôpego
Pela vida última
Pelo copo bêbado, eu saio da cidade.
Da cidade pura
Da cidade vaga
onde é mundo
onde é bunda
onde abundaram.
Escrito por cimatti às 10h41
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